Cadê as capas?
Que saudade das capas e encartes que moldaram minha cultura visual e musical

Eu tenho uma recordação muito legal dos tempos de criança, quando meus mais velhos (pai, mãe, tia, tio, irmão, primos, etc) sentavam-se ao redor de um aparelho 3 em 1, com uma pilha de LP’s por perto, bebiam e ouviam música durante horas.
Eu estava lá, pequeno, sem assunto com eles, sem cerveja na mão, absorto entre as capas e encartes daqueles discos, absorvendo cada informação, cada letra, descobrindo nomes e imagens fundamentais para a minha própria história individual.
Foi nessas capas que eu vi, pela primeira vez, os rostos de Tom Jobim, Cartola, Emílio Santiago, Clara Nunes, Grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Bezerra da Silva, Grupo Raça, Grupo Katinguelê, Tina Turner, Michael Jackson, Whitney Houston, Lulu Santos, Beatles, Elimar Santos, Benito di Paula, Alcione, Elis Regina, Rita Lee, Raul Seixas, Paulinho da Viola entre MUITOS outros.

Em algumas delas eu não vi rostos, mas vi imagens que nunca saíram da minha cabeça, como aquele instrumento prata na capa de um disco do Dire Straits, o bebê nadando na capa do Nirvana, o indígena na capa do Sepultura, o monstro nos discos do Iron, o prisma na capa do Pink Floyd.

Algumas capas simplesmente geniais (para mim), outras bastante simples, mas essas memórias perpassaram o tempo e encontraram hoje, aqui em 2025, nostalgia, saudade e uma certa agonia.
Não é saudosismo
Não é meeeessmo. Eu não sou o tipo de cara que fica bradando “No meu tempo é que era bom”. Tinha coisas maravilhosas e outras nem tanto, assim como em todas as épocas. O que eu sinto falta não é das músicas ou dos artistas, eles estão imortalizados em suas obras. O que eu sinto falta é de:
O Ritual: Sentar ao redor do aparelho para ouvir a música, ao invés de colocá-la como ruído de fundo pra todo o resto que está acontecendo;
A Arte: Ver o design gráfico cumprir seu papel maravilhosamente, seduzindo os olhos, informando, respeitando as obras e seus artistas, seus músicos, seus trabalhadores da cultura.
OBS.: Claro que, na época, eu não fazia ideia do que era design gráfico.
Design, minha gente…
Eu amava ficar lendo as letras, os nomes dos compositores e instrumentistas, dos produtores, diretores, ver as fotos, desenhos, tipografias e formas. Eu decorava as músicas, sabia as ordens, sabia do que o disco tratava, imaginava cada história contada por meio daqueles poemas e melodias.
Os CD´s também trouxeram isso em menor dimensão física, mas ainda assim, continham a informação visual que complementava a arte feita de palavras e notas musicais.
Hoje não se tem mais isso.
As plataformas de streaming apagaram elementos fundamentais da música: desde o sentimento de ouvi-las na sua essência e integralmente — acompanhadas de risadas, comentários e — até a beleza do design e as informações básicas.
Não se sabe mais quem são os compositores a menos que se clique em algum lugar escondido da interface das plataformas. Com os músicos não há sequer essa gentileza.
Eu agora sei os rostos dos artistas novos pelas redes sociais. Não mais no imaginário provocado pelas fotos e ilustrações, mas em vídeos montados para construir imagens que, nem estimulam minha imaginação como antes, nem me trazem realidade.

Quando é que eu verei, novamente, uma obra de Elifas Andreato cobrindo uma jóia da Música Popular Brasileira? Tem mais uma aqui embaixo, dá uma olhada.

E foi com essa capa abaixo que eu vi, pela primeira vez, o rosto do meu grande ídolo musical, Nelson Cavaquinho, e de vários outros sambistas que são referência para mim.

Essas obras de arte faziam coisas que as interfaces das plataformas jamais farão: Dar prioridade às pessoas artistas e a quem faz a obra.
Enquanto as plataformas me fornecem experiência para navegar de música em música, sem nem perceber do que se trata ou em que contexto as canções se encontram, as capas me trazem memória, felicidade, imaginação. Eu sonhava em ir aos shows desses músicos, hoje eu prefiro ficar em casa assistindo pela SmartTV, porque não os tenho mais em um lugar mágico da imaginação (De alguns eu até peguei ranço).
Um registro no tempo
As capas e encartes dos LP’s e CD’s eram um portal por onde eu mergulhava na intensidade da obra de poetas incríveis, de músicos espetaculares, onde eu sentia a música de fato, refletida no som mas também no papel, por meio do design, das fotografias, ilustrações e tipografias.
Elas marcaram épocas, são parte integrante da cultura visual e material de todos os povos onde esse tipo de artefato foi produzido e ganhou popularidade. Os cabelos, as roupas, as letras, as cores: todos os elementos do design refletem os tempos em que foram desenhadas. Elas não eram somente embalagem para a “bolacha”, eram ponto essencial do mercado de discos, e imagens ricas da cultura popular.
Minha esposa me deu uma vitrola portátil de presente, que virou meu xodó. Me sento no quintal, abro uma(s) cerveja(s), pego cinzeiro e o violão, coloco as capas e encartes sobre a mesa, e ali meu mundo é outro, é passado, mas no presente. É presente mas tem muito passado nele.
AAAHH, VOCÊ NÃO GOSTA DE STREAMING?
Enquanto escrevi esse texto, eu estava com uma plataforma de streaming tocando um Nu metal bem baixinho só pra acompanhar o trabalho. Não sei a banda, a canção, o disco, os músicos, compositores, nada.
É válido, me ajuda a relaxar, mas, para mim, música não é só pra relaxar, é para sentir tudo que posso com intensidade.
